Sentido? Pra quê?

6 jun

E começo esse texto por causa de um tweet que acabei de escrever: “como eu queria ser tão boa com ‘palavras faladas’ como eu sou com ‘palavras escritas’”. Nesse momento estou com os olhos marejados, não me pergunte o porquê, porque nem mesmo eu sei. Não é de tristeza e nem é de alegria. Pra falar a verdade, nem sei por que eu estou escrevendo isso aqui. Acho que porque escrever pra mim é uma espécie de terapia, desafoga minha mente que, as vezes, é tão conturbada. Um arrepio acaba de percorrer minha espinha, eriçando todos os pelos do meu braço. Tá ficando cada vez mais difícil de reter as lágrimas, elas insistem em cair. Por que às vezes sinto que não pertenço a este lugar ou a este tempo? Por que sinto que não consigo me adequar, me encaixar nunca? Sabe o que me faria feliz? Um copo de uísque com gelo, um cigarro e uma companhia que aguentasse minhas loucuras ou, pelo menos, fingisse compreendê-las. Sinto-me enjaulada. Enjaulada na minha própria mente. Enjaulada no meu próprio corpo. Enjaulada na minha própria vida. Tenho a impressão de que ninguém realmente se importa com aquilo que eu faça ou diga. Agora, minha mente está a mil por hora, pensando tantas coisas ao mesmo tempo que chego a me fatigar. Queria que tudo fosse diferente. Não sei dizer como seria esse diferente, só sei que queria e quero e irei querer até o fim de minha existência. Sinto as vezes que minhas emoções são tão intensas que vão me rasgar por dentro. Talvez eu sinta isso porque quase nunca consigo expressá-las em sua totalidade. Continuo chorando por quê? Por que continuo chorando? Esse com certeza é o pior texto que já escrevi, mas é o melhor, porque não tem roteiro, não estou pensando antes de escrever cada palavra, elas estão simplesmente saindo, assim, como se tivessem vida própria.  Que merda de vida! É isso que eu digo, que merda de vida tenho eu. Cara, não tá funcionando. Não tá fluindo. Onde está a coerência? Coerência? Não, não suporto mais isso! E aí você olha pro seu vizinho e vê que ele tá feliz, com a vida dele, com a família dele, com a mulher dele, com quem ele é. Ou também será uma mera fantasia? Mentes distorcidas têm esse costume, digo porque sei. Aí você olha pra trás e vê que ninguém dá a mínima importância pra você, que você é só mais uma. Tanto faz. E o mínimo que você pede, que você suplica, que você implora é ter importância na vida de alguém. Quem? Como posso saber? E na sua mente fica rodando sem parar imagens em tons de sépia, sempre cheias de sorrisos e brilho no olhar e felicidade e vida e amor. Você tem a consciência de que não é importante, mas mesmo assim deseja ser. Você tem a consciência de que é patética, mas mesmo assim deseja ser feliz. Você tem a consciência de que sempre terá migalhas e sempre terá que se contentar com elas, mas não, você quer o todo. E você sente uma dor no peito, uma dor inominável, uma dor estranha que parece que surge de suas entranhas e tem reflexo em seus olhos. O que é? Mais um arrepio. Mais lágrimas. Sem falar das vezes que você é uma menininha de 12 anos que se agarra com o travesseiro esperando que, milagrosamente, ele se transforme nele. E nesse mundo você é totalmente feliz, mas as imagens estão borradas e são difíceis de completar. Por quê? E nos seus melhores dias, você olha pra dentro e vê que não é de todo ruim, que não está totalmente estragada, que pode sim ter alguma coisa a oferecer pra quem quiser possuir. Você se atreve até a sorrir, ousa gargalhar. Desafia sua sina. Se agarra à menor ilusão. Até quando? Até o próximo segundo. Até a próxima linha. Até a próxima página. Até o próximo capítulo. Aí quando você menos percebe, lá está ele novamente. Te esperando de braços abertos prontos para te engolfar. Te esperando com um sorriso malicioso de canto de boca. Lá está ele, envolto por escuridão. Lá está o fundo do poço novamente. E ele não vem sozinho. Não. Trás consigo suas piores lembranças e a convicção de que você não vale nada. Não importa. Não faz diferença. E ele faz isso de propósito. Sim. De propósito porque sabe que seu mais íntimo desejo é fazer a diferença, seja em qualquer sentido. Lágrimas novamente. Me deixem em paz. Isso é uma montanha-russa constante. Será que nunca vou conseguir sair dela? Por favor, eu só quero sair dela. É pedir demais? Sim. Me deixem sair dela mesmo assim, se não por merecimento, que seja por pena então. E a música de Chico não sai de sua cabeça “roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião…” Você mais do que ninguém sabe o que é ter medo de espelhos. E a cada dia que passa teme por sua sanidade que parece que está se esvaindo aos poucos. Se é que um dia ela existiu. A cabeça dói, lateja. A mão treme. Os olhos não sabem em que direção olhar. A boca seca. O frio. A dor. As lágrimas. Até você chegar à conclusão que não merece ser feliz, que na verdade não merece nem viver. Na verdade não é que não mereça viver, é que vive por não merecer. Tudo o que você quer e ser resgatado, mas ninguém ouve seu pedido. Agora a música que toca é “Águas de Março” de Tom Jobim, porém na voz de Elis Regina. Aí você é capaz de parar. E para os outros você é completamente feliz. Completamente normal. Completamente sã. Mas não. Não se enganem. Você chora por não ter uma única pessoa no mundo que consiga enxergar que essa não é você. Não se iluda. Sempre terá aquela mancha escura dentro de ti e ela nunca desaparecerá. Talvez porque faça parte de quem você é. Talvez não. Talvez alguém possa removê-la. Talvez não. Dor, porque não me deixas? Você me sufoca a ponto d’eu não suportar a felicidade alheia. Isso me torna má, vil, sem coração? Não. Sim. Então você tenta se convencer de que isso é uma consequência de tudo que você sente. Ou é obrigada a sentir. Não tem como escapar. Você acha que nunca tentei? Já perdi a conta de quantas vezes. Mas é impossível, concluí. De novo você está temendo por sua sanidade. A única coisa que você quer é acabar com isso. Mas de que jeito? E aí mais uma nova descoberta: você é covarde. Descoberta? Não. Admita, você já sabia disso. Sim. Sua verdadeira Eu está aprisionada em sua mente, dentro de um quarto, escuro, pequeno e úmido. Ela está sozinha. Encolhida. Cansou de chorar. Não sente raiva. Não sente ódio. Não sente solidão. Não sente dor. Não sente. Mas você sabe que é ela quem você irá se tornar. Mais cedo ou mais tarde.

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