Homossexualidade. Vamos começar pela etimologia que fica mais fácil: como todo mundo já sabe, ‘homo’ quer dizer igual, ou seja, capacidade de relacionar (sexualmente ou não) com pessoas do mesmo sexo (ênfase, por favor, na palavra ‘capacidade’, sinônima de ‘qualidade’, que por sua vez é antônimo de ‘defeito’). Em plena primeira década do século XXI, acho inconcebível as pessoas acharem que ser homossexual é um defeito, uma doença ou até mesmo descrença em Deus. E, por obséquio, não vamos começar com aquele nosso velho e repugnante falso moralismo de “Ai, eu não tenho preconceito”, “Respeito todos os gays, cada um com a sua escolha”. Nada mais piegas do que isso, sejamos francos conosco mesmos e admitamos que quando vemos um casal de homens se beijando na rua ainda olhamos com certa repulsa, e ainda nos achamos no direito de achar aquilo um verdadeiro absurdo. Afinal de contas, nós, heterossexuais, somos puros, virginais, nunca cometemos nenhum tipo de pecado e nunca tomamos nenhuma atitude vergonhosa ou hedionda que se equipare a um beijo criminal entre dois homens.
Um fato que todos já sabem, mas não admitem: falso moralismo é uma merda! Aliás, corrigindo: o moralismo é uma merda. Veja bem, quem sou eu ou você para afirmar que isso ou aquilo está dentro dos padrões da moral e dos bons costumes? E outra, que padrões são esses? Já sei! Tudo o que afete a ‘educação ideológica’ que nós recebemos – ou não – é considerado imoral. O moralismo brasileiro realmente é algo que me comove – ainda não sei se positiva ou negativamente – somos capazes de tirar proveito das mais variadas situações, sempre com a desculpa do ‘jeitinho brasileiro’. Perguntinha básica: é pra rir ou pra chorar disso? Fica a pergunta, mas eu já estou sendo prolixa demais e voltemos ao assunto principal.
Você por acaso já ouviu falar de ‘gene-homossexual’? É isso mesmo, existem muitas pesquisas atualmente a fim de descobrir se uma mulher que goste de vagina e um homem que goste de um pênis é problema da genética. E até pode ser que seja, mas acho que o real objetivo de tais pesquisas é tentar achar o ‘culpado’ para o grande crime da homossexualidade. Tentar saber de quem a criança herdou esse gene, para que depois, o pai ou a mãe recebam uma voz de prisão, afinal de contas, ser gay é contra a lei, não é? É, infelizmente assim pensa a maioria. E quem é a maioria? Heterossexuais que batem no peito e se vangloriam por estar livre da epidemia que vem se alastrando cada vez mais no mundo.
Agora imagine a seguinte situação: o gene-homossexual foi estudado e está provado que ele realmente existe, suponha que ele interfira diretamente na sexualidade da criança. Imagine agora que a ciência tenha desenvolvido um teste capaz de detectar quais recém-nascidos poderiam se tornar homossexuais. A partir da proposição anterior responda à pergunta: saber disso tornaria a sociedade mais tolerante com as minorias sexuais? A coisa iria era degringolar de vez, um bacanal generalizado, casais desesperados querendo saber se o perfeito primogênito poderia vir a não ser tão perfeito assim. Homens e mulheres se submetendo a baterias de exames para saberem se carregam o tal gene maligno, – acredite, seria exatamente desse jeito que o tal gene seria conhecido, ou coisa pior – os abortos cresceriam exponencialmente, uma vez que, sabendo se o filho que carrega vai ser o homossexual, com certeza muitas iriam rechaçá-lo.
Outra proposição: dois pesos, duas medidas (?). Explicar-me-ei. Se a homossexualidade é genética, a heterossexualidade também é, concorda? Lógica inegável. Portanto podemos considerar o ‘gene-macho’ mais importante que o ‘gene-biba’, uma vez que a heterossexualidade é primordial no quesito evolução (perpetuação da espécie). Partindo-se do princípio supracitado, os possuidores do gene-do-homossexualismo devem todos ir para o holocausto, “malditos vermes que sujam o sublime decorrer da evolução humana.” E olha que eu não entrei e nem vou entrar, no mérito religioso. É demais pra mim, ‘moralismo hiperbólico’ definitivamente não é comigo.
Só aceito a existência do gene-homossexual se também houver um ‘gene-do-preconceito’. Por que não? Perfeitamente plausível, já que nossas características de personalidade também são genéticas. Particularmente eu torço bastante para que haja mesmo o gene-do-preconceito, de verdade. Já ouviram falar de um cara chamado Charles Darwin? Aquele mesmo que disse que nossos pais eram macacos e que só sobrevivem os espertões. Gosto de uma palavrinha em específico que ele popularizou: Evolução. É simples, é uma coisa que determina o surgimento de novos elementos socioculturais mais complexos e diferenciados, resultado de modificações e/ou adaptações de elementos anteriores, menos complexos, obviamente. Mas o que a evolução tem a ver com o preconceito? Quem sabe, depois de muitos anos, ela não consiga desativar esse nosso – utópico – gene-do-preconceito? Afinal de contas é o dever dela tornar-nos cada vez melhores. (Pausa para a ressalva: se você acha que o preconceito é intrínseco, minhas sinceras condolências.)
Mas vamos fugir um pouco da questão biológica. Não tem nada escrito a respeito disso nos livros, e, não sei vocês, mas teoria me cansa. Vou começar com um exemplo bem chulo, mas lúdico o bastante. Lembram quando o celular era considerado coisa de outro mundo, ainda raro, pertencente somente à minoria? Pois bem, – e agora eu peço desculpas pela comparação – é a mesma coisa que deveria acontecer com o homossexualismo. Não, não estou dizendo que o mesmo tenha que virar parte da maioria (assim como o celular virou), mas fazer parte do cotidiano das pessoas, virar normalidade, sabe? Pode parecer simples (e é na verdade), mas o dia que duas mulheres puderem se beijar normalmente na praça de alimentação de um shopping sem ninguém olhar de rabo-de-olho, cochichar o acontecido com alguém ou até mesmo se ofender, será o dia que teremos chegado à igualdade.
Pra falar a verdade, não gosto da palavra ‘Igualdade’, simplesmente porque ela é quimérica. Se você acha que ela é tangível, sugiro parar com esse pensamento quixotesco e aceitar a realidade, genuína como ela é. Não posso tratar um aleijado (sem falso moralismo, ok?) da mesma forma que eu trato uma pessoa que regozija de plena saúde física. Não posso chegar simplesmente e falar: “E aí, vamos jogar uma peladinha?” Seria uma verdadeira obscenidade. Tratar os diferentes de acordo com sua respectiva desigualdade (deveria ser Constitucional isso), o mesmo se aplicaria aos gays, mas nem com essa controvérsia o respeito poderia fazer-se ausente.
Enfim, só sei que feliz é aquele que se liberta de sua ‘obrigação animalesca’ e é capaz de desafiar e contestar Darwin. Mas chega de retórica por ora, porque como diz o outro: “cada cabeça, uma sentença”. E se opinião/desejo mudasse alguma coisa, viveríamos no país daquela tal de Alice lá.

‘Moralismo hiperbólico’ definitivamente não é comigo.
Tratar os diferentes de acordo com sua respectiva desigualdade (deveria ser Constitucional isso)”
Realmente o que prescisamos é pensar em principios de equidade e não de igualdade, e tratar os desiguais na medida de suas desigualdades =)
Achei realmente digno e enriquecedor o tópico =D